David Teles Ferreira

aqui vou publicando o que vou escrevendo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A formiga

Assim que atingiu o estado adulto, esticou as pernas e começou a andar, aquela formiga percebeu que era uma obreira. E, assim, logo começou a trabalhar, seguindo as mais velhas pelo carreiro fora em busca de alimento para o formigueiro. O trabalho não era difícil, mas era duro e exigia força e tenacidade. Assim que identificava algo nutritivo, pegava nele e regressava para o armazenar na despensa, para logo voltar à procura de mais. Às vezes era coisa leve e próxima, mas outras vezes, eram coisas mais pesadas do que ela própria e estavam distantes, pelo que ficava extenuada. Além do perigo que representava atacar outros bichos que ainda não estavam mortos e podiam responder ao ataque. Apesar de trabalharem em equipa, as baixas eram frequentes e, juntamente com a presa, lá iam também os cadáveres das companheiras que, ali, nada se podia desperdiçar. Assim se passaram os dias daquela formiga. Até que um dia, sentindo-se cansada, observou que as formigas soldado levavam uma vida folgada. Como o local era tranquilo, não tinham mais nada que fazer do que ir passeando pelos carreiros a incitar as obreiras a trabalhar mais depressa. E, como pensou que aquilo não era justo, no dia seguinte, em vez de sair para o trabalho, juntou-se às soldados e ficou a ver trabalhar as colegas. Logo uma das soldados lhe perguntou o que pensava ela que estava a fazer. Ao que ela respondeu, prontamente: estou cansada de ser obreira, agora chegou a minha vez de ser soldado e também descansar. E não queres mais nada? questionou então a soldado, Uma bebida fresca, alguém que te carregue ao colo ou o rabinho lavado com água de colónia? Alguém que me leve era simpático, já que me doem tanto os meus pezinhos, respondeu a formiga, não se apercebendo da ironia da pergunta. É para já, respondeu a soldado. E com um golpe certeiro das tenazes cortou-a ao meio e mandou que duas obreiras carregassem as metades de volta ao formigueiro para servir de alimento às restantes.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A água do tempo




Numa recôndita gruta, situada numa remota cordilheira, corre uma água com propriedades especiais. Chamam-lhe a água do tempo, porque guarda memórias. A água forma um pequeno e calmo rio que abastece um grande lago subterrâneo, tão profundo que nunca ninguém o conseguiu medir. Não se sabe por que mecanismo, a água volta a subir para voltar a lá desaguar num movimento perpétuo. E mede, também, a passagem do tempo como um relógio que além de horas medisse anos e séculos, pois toda a gruta funciona como uma gigantesca clepsidra. A gruta está guardada por um povo antigo a quem chamam os guardiões do tempo, e que só deixam aproximar-se dela quem vai por bem. Quem quer lá ir guardar memórias, só tem de se banhar numa das poças que o rio forma. E quando as quer recuperar, basta lá voltar e beber água. Dizem que há pessoas que, quando bebem daquela água, conseguem recuperar não só as suas lembranças, como as memórias dos seus antepassados. Dizem que há pessoas que se vão banhar no rio e vêm embora, para não mais lá voltar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Falsa partida



Uma inquietação que me vem de dentro. Que me estremece o coração. Que me agita os pensamentos. E o corpo a exigir repouso. Um repouso mais imposto do que apetecido. Mas que se não é cumprido logo se sente. Logo o corpo dá sinal se abuso. Protesta. Dói. E não há remédio senão obedecer. Senão esquecer o desassossego. Ignorá-lo. Conformar-me com mais adiamentos. Mesmo que ainda não saiba exactamente o que fica adiado. Com esta sensação de falsa partida. Esperando que não se repita para não provocar desqualificação. A vida segue dentro de momentos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Maria




Quando a Joana saiu de casa a Maria não disse nada. Eu estava meio aparvalhado a ouvir a Joana a berrar comigo enquanto arrumava as coisas dela numas malas que tinha trazido emprestadas de não sei quem. Chamava-me morcão e arrumava as cuecas. Chamava-me imbecil e arrumava as camisolas. Chamava-me anormal e arrumava os jeans. E que se ia embora porque já nem me podia ver. E estava farta de me aturar. E chamava-me atrasado mental e arrumava os colans. Chamava-me parvo e arrumava as mini-saias. E eu embasbacado a olhar para aquilo tudo sem perceber donde vinha aquela fúria toda. Sem perceber o porquê daquela atitude sem anúncio nem aviso. E ela a gritar comigo, sem se lembrar que era dia da empregada. E eu cheio de vergonha nem falava. E ela cada vez mais furiosa com o meu silêncio. E ela que estava farta de eu nunca dizer uma palavra. Nem que sim nem que não. Que era um mono que para ali andava. E quando chegou aos perfumes os insultos já eram repetidos. Pegou nas malas, disse-me adeus, e foi-se embora e levou o carro. E eu fiquei parado sem saber que raio se tinha passado. A empregada continuava na cozinha a passar a ferro sem dizer nada. E quando chegaram as seis horas em vez de se ir embora para a Brandoa ou para a Pontinha ficou cá em casa, fez-me o jantar, pôs a mesa e chamou-me para ir comer. Comeu comigo, arrumou a cozinha e foi-se sentar na sala a ver televisão ao pé de mim. Sem dizer nada. E eu que só sabia que ela se chamava Maria e que ia lá a casa fazer a limpeza à quarta-feira, nem sabia se era a mesma Maria que lá fazia a limpeza há quatro anos ou era outra, fiquei a ver televisão com ela. E quando o filme acabou ela foi abrir a cama, esperou que eu me deitasse e deitou-se também. E no dia a seguir quando cheguei a casa tinha a roupa dela no armário. E não me apresentou pais nem irmãos. E continuo a só saber que se chama Maria e dorme comigo. Faz-me a comida e trata-me da roupa. E nunca disse nada.