Acordar com uma música na cabeça. Um ritmo que não
nos larga. Uma melopeia que, insidiosa, se repete dentro de nós. Nunca a
melodia toda. Quase sempre apenas um fragmento. Na nã, na nã, trálálará. La
realité… The dream… A casa da Mariquinhas… O que seja. Um som que se transforma
em cantilena. Que de tão repetido nos começa a cansar. A tornar-se
desagradável. Mesmo quando ao despertar até nos alegrou o dia. No ho l’etá, no
ho l’etááá… E começamos a achar que deve ser da mesmo da idade. Que as músicas
começam-nos a transbordar interiormente
por falta de espaço. De qualquer modo, é bom, termos essa espécie de
rádio interno. Desperta memórias e emoções, mesmo quando não sabemos bem quais
e porquê. Podia era ir variando ao longo do dia. Já que tudo o resto muda.
Cambia, todo cambia. Cambia, todo cambia…
David Teles Ferreira
aqui vou publicando o que vou escrevendo
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
A solidão maior
Não há solidão
maior do que ter um segredo e não ter ninguém com quem o poder partilhar. É
pior do que ter um segredo e não o poder compartilhar com mais ninguém, que parece
o mesmo mas não o é de todo. A solidão de estar sozinho, de não ter ninguém ao
nosso redor, quando não temos um segredo a pesar-nos no coração ou uma ânsia
por contá-lo a alguém, pode ser a mais absoluta das liberdades. Mas quando um
segredo nos assoberba a cabeça e aperta o coração, ou é algo tão bom que nos
enche a alma de encantamento e alegria, e somos obrigados a guardá-lo só para
nós por não ter a quem o contar, essa é a solidão maior que uma pessoa pode
sentir na vida.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
A arca
A arca. O cheiro. A alfazema velha e humidade. Os
cobertores que arranham a pele. Que mais do que aquecer, pesam. Mantas de papa,
chamavam-lhes. Traçadas já. Carregadas de história e histórias. Memórias de
lençóis de linho, puídos embora. E de colchões de folhelho que sublinhavam com
rangidos o menor movimento. Que marcavam ritmos em noites de lua apetecida.
Apesar das cautelas. Apesar da vergonha. Das rendas das fronhas que marcavam as
faces de flores e cornucópias. E quadrados pequeninos. Lembranças das crianças
que esqueciam os lençóis e se deitavam no meio dos cobertores, porque gostavam
das cocegas que os faziam rir e esquecer o frio. Com as cabeças tapadas para as
orelhas não gelarem e não deixarem de sentir a ponta do nariz. Com as mãos entre
as pernas por causa das frieiras. E que assim, encolhidos a brincarem às tocas,
caíam no sono. Pegavam no sonho. A arca tem cheiros. A arca tem sonhos.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
O coveiro
Era o coveiro da aldeia. Bebia muito, o que parece ser inerente à profissão.
Ganhava à tarefa. Abrir e fechar covas. Arranjar campas. Limpar o único jazigo
do cemitério. Entre o que fazia e o que bebia nunca tinha conseguido passar da
cepa torta. Muito menos arranjar mulher. As do seu tempo queriam era emigrar e
livrar-se duma vida demasiado dura. E ele ali estava, agarrado à terra, entre o
cemitério e o balcão da taberna. Quando a povoação ainda ia florescendo e o trabalho
não faltava, ia conseguindo sobreviver razoavelmente, quer com os habitantes,
quer com os emigrantes que queriam ser enterrados em solo pátrio. Mas com o
tempo os mortos foram rareando e os serviços também. Não havia enterros nem
arranjos para fazer. As campas foram sendo descuidadas e até o jazigo dos
senhores da terra ficou abandonado. Também os trabalhos que ia fazendo no
campo, sazonalmente, para arredondar o orçamento, desapareceram com a falta de
gente. A aldeia ia ficando deserta aos poucos. Começou, então, a passar fome.
Ao princípio valeu-lhe o dono da venda que lhe ia fiando. Mas, depois de lhe
fazer o enterro, as poucas pessoas que restavam aviavam-se numa carrinha dum vendedor
ambulante que não fiava a ninguém. Andava já desesperado quando a morte de um
vizinho, envenenado por cogumelos, lhe deu uma ideia. Primeiro resistiu. Mas depois
a fome falou mais alto. Conhecia bem os fungos e as ervas, pelo que sabia
distinguir, perfeitamente, os comestíveis dos mortais. Por isso, quando já não
aguentou mais a barriga vazia, colheu alguns dos mais mortíferos e visitou um dos
vizinhos mais velhos e doentes. E, aproveitando uma distração, deitou-lhos bem picadinhos
no caldo. Foi tiro e queda. O homem morreu, ninguém desconfiou, e ele lá ganhou
a jorna que lhe deu para mais uns tempitos. E assim foi repetindo o processo,
em períodos de maior carestia, sem que alguém, alguma vez tivesse desconfiado. Só
o fazia como último recurso, para não levantar suspeitas. Até que, de morto em
morto, de morte matada ou natural, se acabou a gente na aldeia. Já só restava ele.
Assim que as filhas do falecido, os homens da funerária e o padre se foram
embora desenterrou outra vez o cadáver. Roubou-lhe o caixão e tornou a sepultá-lo
embrulhado numa manta. A seguir reparou e limpou muito bem o jazigo. Pôs o caixão
no último espaço livre. Lavou-se e vestiu o fato de ir à missa. Depois cozinhou
uma pratada de cogumelos. Comeu-os todos. Foi deitar-se no caixão e fechou a
tampa.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Ela
O dia era Domingo. Ela chegou com o seu ar gaiato que não revelava os
três filhos pequenos. Chegou sozinha. Momentaneamente abandonado o ar diligente
e atarefado de esposa e mãe. Antes com o ar leve de quem não tem ninguém ao seu
encargo senão ela própria. Pediu sopa, segundo, salada, sobremesa. Para beber,
um copo de sumo de laranjas acabadas de espremer. Sentou-se à mesa com um
suspiro satisfeito. Bebeu um pouco de sumo com ar deliciado e o sol, até aí
encoberto, abriu radioso, como se até ele quisesse tornar aquele instante ainda
mais perfeito. Comeu a sopa. Não deixou que um cabelo encontrado na salada lhe
perturbasse o momento, e após curta reflexão, atirou-o fora, decidida. Comeu a
salada toda mas deixou um pouco de arroz e carne no prato. Acabou o sumo.
Agarrou na colher. Limpou-a com o guardanapo. Comeu o doce. Primeiro em
pequenos pedaços, depois em grandes colheradas. Como se em vez de o saborear
satisfizesse uma fome antiga. A seguir, desfez a pose descontraída, arrumou os
pratos no tabuleiro e levou-o ao balcão. Foi-se embora com um ar esbelto e
desempoeirado a que a ruga entre as sobrancelhas emprestava agora um toque de
pesada seriedade.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Poetisa
Senhor! Chegue aqui, por favor. Venha cá falar
comigo. Não tenha medo. Eu sei que é intimidante vir a este hospital, mas aqui
nem todos são doidos. Muito menos perigosos. Pelo menos não mais do que os que
andam lá fora. Eu sei-o bem, acredite. Estou aqui para escapar, não por ser
doida. Não me adapto ao mundo lá de fora. Ou ele a mim. Eu tentei, juro, mas
não consegui. Desde sempre. Fui, desde que nasci, uma criança estranha, diziam.
Ficava horas a olhar as plantas e os insectos. Gatinhava até às flores para
cheirá-las e ria e chorava ao mesmo tempo com o seu aroma. Ao invés dos outros miúdos
não esmagava as formigas nem tirava as asas às moscas. Nunca desfolhei uma
flor. Assim cresci, solitária e sujeita à constante troça dos demais. A escola,
então, foi um suplício, só mitigado por a professora gostar de mim. Era bem
comportada e aplicada. E tinha verdadeiro prazer em aprender. Adorava quando a
professora contava a história ou lia estórias e poemas. Chegava a chorar de
emoção ao ouvi-la. Por isso me chamavam anormal. Deixei a escola cedo mas nunca
me esqueci do que lá aprendi. Também cedo fiquei só, por morte da minha mãe,
que meu pai já abalara há muito. Trabalhava aqui e ali, mal ganhando para
comer, mais por pena de algumas pessoas boas, embora fosse diligente e
esforçada. Mas o estigma de louca nunca me abandonava. Começaram a acusar-me de
ter ataques de poesia. Verdade! E tudo por, de quando em vez, falar em verso.
Sempre tive jeito para rimas e gostava de brincar com as palavras. Por isso me
chamavam poetisa e outras coisas. Na minha terra, poetisa é dos piores insultos
que pode haver. Sei agora, depois destes anos todos, que era medo o que
sentiam. Medo da diferença e de uma mulher que queria pensar pela sua cabeça.
Uma pessoa que pensa é assustadora no meio em que cresci. Por isso me mandaram
para aqui, e nem sabem o favor que me fizeram. Cá sou feliz. É muito tranquilo.
Ninguém nos julga por sermos diferentes. Aqui é normal ser-se diferente. Dão-me
trabalhos para fazer e gostam da maneira como os executo. Têm uma biblioteca
cheia de livros que vou lendo e relendo um por um. E até apreciam os meus
versos. Também me chamam poetisa, mas é um elogio. Como sabem da história dizem,
Tiveste mais um ataque de poesia e que lindo poema escreveste.
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